sábado, março 26, 2016

Os espaços são lugares cativos
das paredes das quais se é refém.
As pessoas, só fragmentos vivos
do facto que é não serem ninguém.

Os sonhos, o momentâneo oblívio
do p'sadelo que é a realidade,
e os amores um impulso pífio
de ignorar do afecto a vanidade.

E o poema não passa de a razão
constatar que por tudo ser fútil
do desespero também a expressão,

suspensa em vácuo, sem direcção,
tem o mesmo tanto de inútil
que a passagem do tempo, erosão.

quarta-feira, março 16, 2016

Pela catedral da alma passa o dia
como folhas de Outono caem mortas,
cada folha de pensar é só as portas
sob a abóbada de ela 'star vazia.

Entram quer noite quer vento p'los vitrais
que à luz da vela são só vidros partidos,
o movimento, a chama, sonhos varridos
p'lo ocaso que há a cada passo mais.

Queda, a espera no encosto do pilar
que sustenta o nada que há ante o altar
de memória pelo caruncho carcomida

é saber que ele é falta de esperançar
por saber que resta pelo sono aguardar,
que ela mesma por ele é absorvida.